Dancei demasiado tempo contigo. Tropecei sempre nos mesmos passos sem querer compreendê-los. Esqueci-me de como se aprendia até que te perdi. Perdi-te. Fartaste-te, gritaste, berraste tanto. Não pelo desespero ou pela cura, mas para que os teus pulmões pudessem voltar a respirar.
Perdi-te e sufoco com a perda. Sufoco pela perda ser merecida, ser passiva, ser cuspo, ser saliva. Transparente, densa, carregada como um forno, opressiva, imobilizadora.
Dancei demasiado tempo contigo. Não aprendi. Perdi-te e recomeçar é tão impensável como ficar sem ti. Recomeçar é tão doloroso como o grito que te saiu da boca. Recomeçar é perder a perda e abandonar o que me resta de ti.
Dancei durante tanto tempo contigo. Gastei todos os gestos. Gastei todos os erros. Tornei-me inviável com a tua ausência. Abortei-me.
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quarta-feira, agosto 05, 2009
sexta-feira, abril 03, 2009
Vi o homem estacar, sentar-se, tirar uma agulha da mão e empalidecer. Durante duas horas ficou quieto naquele banco do jardim, a olhar para o infinito. De dez em dez minutos gritava: "Esqueci-me de como se ama!". Parecia que o grito era a resposta explicativa que o infinito lhe devolvia. Logo a seguir fazia um gesto com o braço, calava-se de imediato e parecia entrar outra vez num torpor. Dez minutos passados e novo grito: lancinante, horrível.
Soube, dias depois, que ficou ali durante duas horas. No mês seguinte não se falou de outra coisa, dizia-se que tinha sido vítima de uma doença do sistema nervoso que afectou certas zonas do cérebro. Lembro-me de aguentar dois gritos e ao terceiro fugir do jardim com medo de enlouquecer. Fui dos últimos a abandonar o local e ninguém ouviu o homem a gritar pela última vez.
Quando lá chegaram, horas depois, já estava colado ao chão. A morte tinha sido causada por uma paragem cardíaca, o corpo estava normal excepto dois pormenores: a cara parecia toldada pelo pânico e no braço direito doze furos com sangue seco recente apagavam a tatuagem do perfil de uma mulher.
Soube, dias depois, que ficou ali durante duas horas. No mês seguinte não se falou de outra coisa, dizia-se que tinha sido vítima de uma doença do sistema nervoso que afectou certas zonas do cérebro. Lembro-me de aguentar dois gritos e ao terceiro fugir do jardim com medo de enlouquecer. Fui dos últimos a abandonar o local e ninguém ouviu o homem a gritar pela última vez.
Quando lá chegaram, horas depois, já estava colado ao chão. A morte tinha sido causada por uma paragem cardíaca, o corpo estava normal excepto dois pormenores: a cara parecia toldada pelo pânico e no braço direito doze furos com sangue seco recente apagavam a tatuagem do perfil de uma mulher.
quarta-feira, novembro 12, 2008
Acordei à procura da meia estação em mim. Saí para a rua com os preconceitos das folhas castanhas e dos corações amargos. Mergulhei no alcatrão das ruas, quis ser um extraterrestre com pele cor de petróleo e perscrutar os olhos das pessoas. Quis dar-me a oportunidade de me descobrir através dos gritos e do ódio delas. Ser espancado, ser violentado e achar-me deitado numa poça, mergulhado num charco de água gelada com sangue. Dar à humanidade a derradeira hipótese de me atravessar com o seu sofrimento, antes de voltar para casa e transformar-me na próxima estação.
domingo, outubro 26, 2008
Foi feliz na amargura. Viveu de acordo com as melhores peças de teatro na Broadway. Viveu um romance pós-guerra nos moldes do sonho americano. Cheio de cores e de roupa luxuosa, de corpos e suor, de tiques e ardor. Que começou e acabou como uma peça de Tennessee Williams, com segredos expostos e horrores da natureza humana, com obsessões e crueza. Um romance amargo com uma banda sonora privada. Ouvia Rufus Wainwright todas as noites, depois de uma conversa ao telefone, uma caminhada na noite, uma passagem por um quarto que nunca se tornou seu conhecido.
terça-feira, setembro 02, 2008
Take Five - Dave Brubeck
Sim, é esse mesmo. O bar na downtown que queres entrar. O que desces as escadas para a cave e entras no mundo de fumo em que as cara das pessoas são a preto-e-branco. Onde se ouvem segredos camuflados na mais bela história de amor que está a ser contada na mesa ao lado, onde estão duas mulheres lindas e um homem com um sorriso condescendente. E de vez em quando há porrada e de vez em quando há gritos, mas na mesa certa tu ouves tudo como a continuação da canção que acabou e que sustém a respiração antes da próxima iniciar. O bar em que o empregado te conhece, mas nunca saberás se o olhar de reconhecimento vem apenas da memória do último dia ou do último ano. O bar que te vê gastar os teus trocos, que te vê sair de lá bêbedo, alegre, triste, com insónias, fodido com o trabalho e com a vida ou simplesmente a inspirar fundo e a gozar a noite antes de mais um dia nascer.
O bar que te conta segredos nas paredes, nos olhos das pessoas que saem da casa de banho, no sorriso do gajo que bebe o último trago de gin. Que te conta a ti, os teus próprios segredos, numa versão defeituosa, enriquecida, encarnada por outros, demoniaca, visceral e que te obriga, todas as noites, a voltar ali.
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domingo, agosto 24, 2008
A maior parte das vezes chamava-se maria
Era do fumo do cigarro que nascia? Que buscava força para a sua carne? Deitada. Sentada. A luz a bater e a entrar pelo ouvido, a mistura das sensações e dos sentidos. As pernas despidas, o jacto de claridade, a janela aberta, o vento a soprar na cortina.
A doçura negra do desalento.
A memória do último beijo.
Não esperava pelo fim da estação, estava quieta no movimento, soprava o fumo desalinhado do cigarro, criava sombras. Assombrava-se no meio da luz.
A doçura negra do desalento.
A memória do último beijo.
Não esperava pelo fim da estação, estava quieta no movimento, soprava o fumo desalinhado do cigarro, criava sombras. Assombrava-se no meio da luz.
quarta-feira, agosto 13, 2008
- Não podes deixares-te ser frágil por me achares forte. Não podes. Não é justo, pára de fazer isso! A minha força torna-se uma representação tua, como se fosse algo de que eu me apoderasse ou que se apoderasse de mim. Esqueces-te que é apenas a minha mente a dizer "sê forte". Esqueces-te mais do que tudo que é a tua mente a dizer-te "deixa-te ser frágil". Não concebes que possa ser eu, um dia, a tornar-te forte, a obrigar-te a ser forte, a obrigar-te a teres uma representação de ti de força. Queres levar-me ao colo? Isso são tudo mentiras, é tudo uma farsa, é tudo injusto. Sê forte por ti, sê fraco por ti. Não te sirvas dos outros para justificar a tua inépcia!
sábado, julho 26, 2008
No presente
Começou a sorrir e a chorar, as lágrimas secaram com a força do vento vindo da janela aberta. O carro continuou a rolar à mesma velocidade. Ele, seguro de si, viu pela primeira vez que não estava a fazer o caminho da fuga nem o da salvação. Estava só a viajar...
sexta-feira, junho 27, 2008
A fenda
Fez barulho. Abriu-se um espaço profundo e escuro, e caíram pessoas fenda abaixo. O propósito sólido da Terra fugira, já não existia a segurança dos pés assentes no chão. Ficara o medo de andar, um acto quase tão inadaptável como o de voar. Por isso as pessoas começaram a olhar para o céu de outra forma. Inquisidoras, como se o espaço fosse o prolongamento da Terra, como se tivesse o mesmo grau de insegurança. Lançaram-se em jactos, em propulsores, enviaram-se para fora. Romperam a atmosfera e "aí vou eu!". Olharam para trás, e viram uma bola redonda e pequenina, tão estúpida como outras bolas redondas e pequeninas que andavam por aí... E surgiu a ideia: o mundo é universal.
segunda-feira, junho 16, 2008
O teu olhar nem o vidro atravessa
Esgotara-se.
Achava-se vazio. Não era a falta do rasgo, nunca o tivera. Era a falta de penetração.
esgotara-se.esgotara-se.esgotara-se.esgotara-se.
Não restava nada.
Não conseguia ter longas conversas. Não conseguia amar.
Esgotara-se.
Só tinha o movimento. Apoiava-se no passo como única forma de respirar.
Perdera a intensidade no right on track que a vida lhe tinha proporcionado.
Achava-se vazio. Não era a falta do rasgo, nunca o tivera. Era a falta de penetração.
esgotara-se.esgotara-se.esgotara-se.esgotara-se.
Não restava nada.
Não conseguia ter longas conversas. Não conseguia amar.
Esgotara-se.
Só tinha o movimento. Apoiava-se no passo como única forma de respirar.
Perdera a intensidade no right on track que a vida lhe tinha proporcionado.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Por fim ficaram os olhos, a esforçarem-se para reter a atenção um do outro. Um diálogo mudo, numa outra língua, para se certificarem que o que tinha sido falado ia para lá do mero aceno mental e criara raízes na alma de cada um. O que estava em jogo não permitia erros nem decepções, o fim de um amanhecer diário que carimbava a solidão, a hipótese de se deixar de vaguear sozinho pelo universo.
De vez.
De vez.
domingo, fevereiro 24, 2008
Azul/Castanho
Ao longe o rio embatia contra o mar, numa luta de cores. O primeiro, castanho das chuvas e das lamas, o segundo, azul escuro, como se a profundidade fosse uma forma de ser e não uma condição física.
Contudo, ele que olhava, questionava aquela fronteira que as cores definiam. Será que mais uma vez não seria a incapacidade humana de apreender a gradualidade das coisas, responsável por aquela percepção? Agora na sua vertente fisiológica, óptica?
Focava a fronteira, olhava para o azul e para o castanho distantes, esforçava-se para encontrar uma zona de mistura, um padrão intermédio. Não admitia ser vítima do seu cérebro primário, que até naquela situação, continuava a envolver a realidade num sistema binário que tudo simplificava, e que destruía a hipótese de se ser verdadeiramente livre...
Contudo, ele que olhava, questionava aquela fronteira que as cores definiam. Será que mais uma vez não seria a incapacidade humana de apreender a gradualidade das coisas, responsável por aquela percepção? Agora na sua vertente fisiológica, óptica?
Focava a fronteira, olhava para o azul e para o castanho distantes, esforçava-se para encontrar uma zona de mistura, um padrão intermédio. Não admitia ser vítima do seu cérebro primário, que até naquela situação, continuava a envolver a realidade num sistema binário que tudo simplificava, e que destruía a hipótese de se ser verdadeiramente livre...
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Preenchia-se de gestos e tensões. Falava, e o que dizia terminava no modo como punha a mão, ou na expressão que escolhia para os olhos e testa. Acusavam-no de teatro, de estar sempre em cena. Talvez exagerasse no sentimento, talvez vivesse nos extremos da emoção, talvez tudo estivesse sempre demasiado artilhado, mas nunca era falso. Fizera-se assim, ao longo dos anos, as mãos, a cara, o corpo foram-se transformando numa marioneta de si mesmo e serviam como uma continuidade de tudo o que ia sentindo. Forçava-se, pensava no gesto, aperfeiçoava o movimento. Queria-se suave, oferecia-se numa dança subtil e expressiva. Com um único olhar, a audiência compreendia-o à primeira.
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quarta-feira, janeiro 23, 2008
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Quarteto
Eram quatro. E na simetria da vida escolheram ser duas raparigas e dois rapazes. Não era uma questão sexual nem de amor, a rede que os prendia era a amizade. A amizade exposta na melhor forma. Não pura, mas trabalhada, conversada, entendida, com agendas e horários capazes de atingir uma sofisticação tal, que de fora, quem não conhecia aquele quarteto, achava que tudo tinha lugar dentro da naturalidade do improviso. Mas não, não existiam ali forças cósmicas, a não ser eles os quatro.
Há anos que se juntavam na passagem de ano para organizar os 365 dias que se avizinhavam. Era uma tarefa extenuante que desenvolviam durante oito horas, mas que lhes dava um prazer enorme. Encontravam-se na casa de um deles às 20h em ponto, paravam durante 10 minutos para celebrar o ano novo, com abraços, beijos, sorrisos, votos sinceros, champanhe, panelas, passas, desejos, saltos de cadeira. À 00h05 voltavam para o trabalho até às 4 da manhã.
Durante essa noite utilizavam as folhas de Excel que traziam, já organizadas em meses e dias e punham a imaginação, a criatividade e o sentido prático a funcionar. Desenvolviam planos a longo prazo, expunham os projectos individuais e encontravam soluções para cada um. Marcavam férias, alternativas para as férias, planos Cês para o caso de tudo o resto correr mal, numa metodologia quase idiossincrática, visto que na maioria das vezes a coisa batia certo à primeira. Tudo isto infiltrado por um sentido extremo de humanismo e concessão, que trazia ao de cima algo que ninguém acreditaria - a espontaneidade. No final, os 12 meses projectados viviam de uma espontaneidade improvável resultando em vivências únicas.
Às 4 da manhã, quando se iam embora, a única promessa de ano novo que faziam uns aos outros era estarem ali, quatro horas antes do planeta começar uma nova translação.
Há anos que se juntavam na passagem de ano para organizar os 365 dias que se avizinhavam. Era uma tarefa extenuante que desenvolviam durante oito horas, mas que lhes dava um prazer enorme. Encontravam-se na casa de um deles às 20h em ponto, paravam durante 10 minutos para celebrar o ano novo, com abraços, beijos, sorrisos, votos sinceros, champanhe, panelas, passas, desejos, saltos de cadeira. À 00h05 voltavam para o trabalho até às 4 da manhã.
Durante essa noite utilizavam as folhas de Excel que traziam, já organizadas em meses e dias e punham a imaginação, a criatividade e o sentido prático a funcionar. Desenvolviam planos a longo prazo, expunham os projectos individuais e encontravam soluções para cada um. Marcavam férias, alternativas para as férias, planos Cês para o caso de tudo o resto correr mal, numa metodologia quase idiossincrática, visto que na maioria das vezes a coisa batia certo à primeira. Tudo isto infiltrado por um sentido extremo de humanismo e concessão, que trazia ao de cima algo que ninguém acreditaria - a espontaneidade. No final, os 12 meses projectados viviam de uma espontaneidade improvável resultando em vivências únicas.
Às 4 da manhã, quando se iam embora, a única promessa de ano novo que faziam uns aos outros era estarem ali, quatro horas antes do planeta começar uma nova translação.
terça-feira, dezembro 18, 2007
Descuidado, lançou-se no amor...
..."Agora é que é!"- suspirou, como se tratasse de uma premonição. E atirou-se.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Alvorada
Quantas mortes eram necessárias para um apocalipse? Que pergunta estúpida! Nunca precisara de conceitos para reagir às situações. Sempre tivera a razão e a emoção a andar a par e passo, água quente e fria que se misturavam num caudal morno, constante e responsável. Por isso estava viva e lúcida, por isso estava ali, sozinha, no cimo da falésia a ver o sol nascer.
Não vinha à procura de esperança, decidira-se apenas que necessitava de viver algo extraordinariamente belo. Estava cansada da angústia e dos choros repetidos que a tristeza e o horror traziam. Olhou para o horizonte, gradualmente o céu foi passando de preto para azul-escuro, roxo, vermelho, laranja, até que a primeira franja de sol despontou. A cara dela ficou iluminada e uma lágrima desprendeu-se cuidadosamente do olho esquerdo e escorregou bochecha abaixo. Fixou-se prolongadamente no mar enquanto mais e mais lágrimas caíram num choro contente e aliviado.
Passado algum tempo pôs-se de pé. Atrás dela a vila estendia-se a alguns quilómetros de distância. De longe, o perfil dos edifícios não anunciava a ausência de pessoas nem de sentidos, nada fazia querer que a civilização tinha deixado de existir. Isso pouco lhe interessava, em passos largos dirigiu-se de volta para sua casa, para dias e semanas de trabalho, cansaço e incertezas. A falésia e o sol viram-na ficar pequenina e desaparecer na paisagem. Ela, contudo, tinha guardado aquele lugar na sua mente, certificara-se que o amanhecer não estava estragado e iria voltar ali repetidamente.
Não vinha à procura de esperança, decidira-se apenas que necessitava de viver algo extraordinariamente belo. Estava cansada da angústia e dos choros repetidos que a tristeza e o horror traziam. Olhou para o horizonte, gradualmente o céu foi passando de preto para azul-escuro, roxo, vermelho, laranja, até que a primeira franja de sol despontou. A cara dela ficou iluminada e uma lágrima desprendeu-se cuidadosamente do olho esquerdo e escorregou bochecha abaixo. Fixou-se prolongadamente no mar enquanto mais e mais lágrimas caíram num choro contente e aliviado.
Passado algum tempo pôs-se de pé. Atrás dela a vila estendia-se a alguns quilómetros de distância. De longe, o perfil dos edifícios não anunciava a ausência de pessoas nem de sentidos, nada fazia querer que a civilização tinha deixado de existir. Isso pouco lhe interessava, em passos largos dirigiu-se de volta para sua casa, para dias e semanas de trabalho, cansaço e incertezas. A falésia e o sol viram-na ficar pequenina e desaparecer na paisagem. Ela, contudo, tinha guardado aquele lugar na sua mente, certificara-se que o amanhecer não estava estragado e iria voltar ali repetidamente.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Sobre o frio
- Tens frio?
Disse-lhe que sim, que tinha. Que o frio era uma constante no meu calendário. Iniciava-se por meados de Outubro e só abrandava nos últimos dias de Abril. Acrescentei ainda que a idade avançava e o número de dias sem frio era cada vez menor. Do que se concluia que no ano em que passasse o Verão com frio tinha oficialmente chegado à velhice...
- Tudo isso!? – respondeu-me com um ar admirado. - E o Aquecimento Global, não te anima?
- Zero. Antes pelo contrário, cada vez que ouço falar no dito percorre-me um arrepio na espinha!
Disse-lhe que sim, que tinha. Que o frio era uma constante no meu calendário. Iniciava-se por meados de Outubro e só abrandava nos últimos dias de Abril. Acrescentei ainda que a idade avançava e o número de dias sem frio era cada vez menor. Do que se concluia que no ano em que passasse o Verão com frio tinha oficialmente chegado à velhice...
- Tudo isso!? – respondeu-me com um ar admirado. - E o Aquecimento Global, não te anima?
- Zero. Antes pelo contrário, cada vez que ouço falar no dito percorre-me um arrepio na espinha!
quinta-feira, setembro 27, 2007
Proibira-se dos voos directos. Assustava-se com o Second Life e tinha-se apaixonado pelo Google Earth. Fazia todas as viagens por etapas, com escalas, paragens, descansos. Decidira há muito que os destinos só por si eram insuficientes, irreais. Que na palavra ida havia quilómetros de ar, terra, árvores e pessoas, que cada uma podia ser um lugar e uma chegada, que todo o futuro estar é definido por um ir. Desprezava as pessoas que formavam um mapa mental do mundo através de pontos isolados e perdia-se nos relevos mais ou menos detalhados do Google Earth, acrescentando sempre que podia fotografias de locais por onde tinha passado. Ficava angustiado quando entrava numa auto-estrada e olhava para a paisagem a passar, rápida, terrível. Percorria-lhe a dúvida de tudo ser um cenário virtual e só sobrevivia à experiência com a ilusão de que um dia todo aquele terreno iria ser palmilhado pelos seus pés...
quarta-feira, agosto 01, 2007
Campismo e arredores
Foram os detalhes que me chamaram a atenção. A mão que segurava no corpo esguio do copo de vinho branco, o cabelo grisalho do homem sentado no sofá da sala, as calças que terminavam nos pés descalços que não tocavam no chão, o galgo deitado com o ar reverente dos galgos, a tarde a pôr-se... A sala estava a meia luz, não percebi se o homem estava a olhar cá para fora ou para algum objecto no outro extremo da pequena sala. Mas o conjunto pareceu-me irreal, no meio das centenas de casas brancas de contraplacado, cheias de famílias - Pai, Mãe, Avós e Netos envolvidos em barulhos e cozinhados, aquele homem era a antítese do parque. Naquela esquina a vida era temperada de outra forma, o tempo trabalhava a favor, o dia estava cheio de rituais e respirações. O homem tinha outro ritmo, a sabedoria parecia estar do lado dele.
Os parques de campismo são um caldo rico para qualquer observador. Passei o fim-de-semana passado a fazer campismo virado para o mar. Mas em terra não pude deixar de notar no universo denso que a vida de um parque de campismo constrói. Este foi apenas um pormenor.
Os parques de campismo são um caldo rico para qualquer observador. Passei o fim-de-semana passado a fazer campismo virado para o mar. Mas em terra não pude deixar de notar no universo denso que a vida de um parque de campismo constrói. Este foi apenas um pormenor.