domingo, abril 08, 2012

Sinto um fervor renovado vindo dos dias, das refeições. Vindo de tudo o que me alimenta. Um foco de compulsão e força cardíaca que me acelera. Um desejo de expulsão, de compromisso. Um desejo de alvo. É um fervor que termina em cada perda diária, uma perda que se sobrepõe inexoravelmente quando toda a energia se esgota. São forças simétricas que me inutilizam. Arrebatam-me com o mesmo grau de perplexidade. Perco o movimento com ambas. A primeira imobiliza-me ao puxar-me em todas as direcções. A segunda deixa-me retido, sob a minha própria gravidade. As duas forças começam nos músculos e terminam no cérebro ou o inverso, não é importante. Em quase 30 anos de vida continuo sem saber lidar com elas.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Desmembrado

Sinto-me desmembrado. Um pedaço em cada lado, cada um a chamar pelo outro por todos saberem que dói sempre estar noutro sítio.

sábado, outubro 29, 2011

Sobre a escrita

É tão isto mas é sempre ao lado.

Rádio Amália

Saí da noite e entrei no táxi. De fora deixei o fumo do tabaco e as luzes interiores e sentei-me na Lisboa já amanhecida. A Lisboa do fado na rua e do Tejo azul, da feira da ladra e do movimento de sábado. Entrei sozinho na manhã com a mesma certeza com que entrara sozinho na noite. Com a premonição do tempo. Contínuo, imparável. E atravessei a cidade ainda escura imerso no devir. Em direcção a casa. Adiantado. Fui acompanhado pelo suceder de vozes, pela guitarra portuguesa. Ainda de noite na manhã da rádio Amália.

domingo, outubro 23, 2011

À espera do Outono

Vizinho: "Ainda não começou a chover."
Eu: "Mas as folhas já começaram a cair."

Days go by

Mordo o maxilar. Não sei fazer melhor. Desgasto-o, inconsciente. Macero a junção dos ossos em sonhos, longínquo. Ganho um problema. Já disse que não sei fazer melhor. Tão pouco sei curar-me. Não quero. É como levantar o volume de uma canção para antecipar a surdez, para activar a dor. É uma aproximação. A música preenche o cérebro, os sentidos estalam e é só ouvir. Ou submeto-me a um ecrã e aí é só ver. Até os olhos enegrecerem e o sono apoderar-se. Então volto a ruminar. Até ao dia seguinte.

terça-feira, abril 12, 2011

Toco com os pés de lã nas letras do teclado. Estou a fazer uma grande imprecisão ao escrever. Toco como se uma música vagarosa soltasse por baixo dos meus pé, em passos que dou, cada vez mais rápido. Faço ouvir com a premonição do fogo, do raio, do instante. Toco, porque sei para onde vou, sem medo de dizer que o berro que ouviram era meu. Toco e a minha voz soa grossa e fria e quente. Toco porque há espaço, porque me permito, porque sou.

sexta-feira, março 12, 2010

A correcção da fome

Do you know: Writing after dinner without dining? Atum e batatas, iogurte aos pedaços com tosta de queijo. No butter. Do you know? É diferente da correcção da sede. A correcção da sede pode continuar sempre, é pura. O estômago é outra coisa. Comer é uma procura de nós próprios. Comer é engolir-nos. Vai aos poucos.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Hiroshima meu amor

"O que poderia fazer o turista, se não, justamente, chorar?" *

O turista pode sempre esquecer...

* Hiroshima mon amour
Enough of sore hearts.

domingo, janeiro 10, 2010

Song for a cold day

"I will never have the courage of others,
I will not approach you at all,
I was always taught to worry about things,
All the many things you can't control." *


* Midlake, "The Courage of others".

sábado, janeiro 09, 2010

Não tenho tocado em árvores. Faz-me falta.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Este blogue é cada vez mais um grande nada.
Não conheço as suas canções e talvez sejam os arranjos, a voz de mulher, whatever. A "Tower of Song" do Cohen renovou-se com a Martha Wainwright a cantar. E eu diria que voltei aos meus 13 anos quando ouvia ininterruptamente o "I'm Your Man", mas não é bem isso. É um apelo diferente, uma canção nova com uma letra antiga.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

2010

Segunda-feira chega ao fim abafando os resquícios da última década. Sem eu saber porquê, 0 último mês de 2009 perdurou durante o fim-de-semana sempre que o meu olhar fugia para a contemplação. Mas os desejos foram semeados e a nova rotina ditou-me um amanhecer fresco que nem a Veneza de Corto Maltese - onde o Natal chega atrasado e o ano estende-se para lá do dia 31 de Dezembro - escapou. Hoje adormeço com Janeiro instalado em todo o mundo. Não é mau.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

À espera de 2010

Nem estrelas ou signos, roupa nova, passas ou saltos de uma cadeira para o chão. Sirvo-me de gestos mais comuns para fechar a porta a 2009 e receber de braços abertos 2010. Uma frase inspirada numa música, a organização do calendário da próxima semana, arrumar o quarto, libertar-me de excessos mentais, não ruminar em assuntos mortos. Abrir espaço na prateleira do armário da casa de banho e encher um saco com um frasco de perfume vazio, cremes fora de validade, um plástico que já não guarda lâminas de barbear, uma escova de dentes usada que não chegou a ter dono.

sábado, dezembro 26, 2009

Os dias que não existem

Hoje arrancam os dias que não existem. Esquecidos antes de nascerem. Quando o ano já foi ditado, os acontecimentos marcados, os livros fechados. Seis dias em que nada de novo pode surgir, em que se expira as últimas moléculas do calendário, numa espera sôfrega para ouvir as doze badaladas do novo ano que está por chegar. O instante em que ficamos a olhar para o relógio das estações, quando o ponteiro dos segundos já terminou a sua volta, mas o dos minutos teima em marcar o novo começo. E nós, por momentos, duvidamos da continuidade do tempo.

sábado, dezembro 12, 2009

Para onde foram todas as paisagens emocionais?

Há esta falta de curiosidade, de wonder, que me assusta. A perda de interesse pelas palavras. Havia o tempo das emotional landscapes que me percorriam, mesmo quando faltava algo de tangente para se agarrarem. Existiam por si, para mim, sem a dúvida, sem a quebra. Um reboliço de vida que me preenchia mesmo que as testemunhas fossem raras. Talvez tenha abafado tudo nas sucessivas oportunidades que tive para amar. E com isso perdi o gosto.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Strange Days

Os dias estranhos nunca nos abandonaram. Foram escritos há mais de 40 anos e permaneceram, entre manhãs escuras, tardes soalheiras e noites quentes. Os dias estranhos entregam-se em fragrâncias puras e perfumam-nos os medos e as angústias. Cantam alto ritmos que ninguém nos ensinou. Auguram o negrume do final das épocas. Incendeiam o nosso inconsciente de detalhes, mostram-nos horrores no horizonte. Atingem-nos com o aviso de que o futuro é irreversível.

domingo, novembro 29, 2009

"I can give it all on the first date I don't have to exist outside this place."

Basta desfazer-me de um pouco mais de humanidade e a pureza dos The XX deixa de me incomodar.

sexta-feira, novembro 13, 2009

E se eu tiver medo das alturas? E se eu não conseguir? E o que é que consigo se conseguir? E abraçar a tristeza? Mascá-la resolutamente. Engolir os maus presságios, viver de opressões. Deixar de sair de casa. "I love the valley." Não tento ser tudo, nem tenho gosto em ser nada. E o inverso. E a vontade. E quase morro sem tentar começar a ser.

O melhor berro da pop na última década

"Je t’aime the valley
Je t’aime the valley OH!!!
I am an orphan de la valley
And I won’t rest until I forget about it
I won’t rest until I don’t care
LA LA LA LA LA LA LA"

Não é "oh!!!" é AAAARAHHHHHHH!!!!!!!!!!. Expludam-me contra uma parede, por favor.

O Inverno aproxima-se e o meu dress code passa-se a reger por um sistema de camadas.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Queria ser figurante deste filme e gritar "I can Hardly Wait" *

"Lips cracked dry
Tongue blue burst
Say angel come
Say lick my thirst
It's been so long
I've lost my taste
Here Romeo
Make my water's break"

* O "Strange Days" é só pérolas, a Juliette Lewis a cantar PJ Harvey é uma delas.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Ainda os Elbow

"I can work till I break but I love the bones of you. That, I will never escape."
Só agora reparo no piscar de olhos ao "Summertime" que se ouve no final do "The bones of you", dos Elbow.

Mellow

terça-feira, novembro 10, 2009

Vai ser sempre demasiado tarde para a infância

É na frase que abre o livro de Doris Lessing no seu "O Sonho mais Doce" que tudo começa e acaba. "E partem pessoas que foram filhos afectuosos." Pressente-se o horror na universalidade e melancolia destas palavras, num livro que, se fala do passar das décadas da segunda metade do século XX, é também uma análise lúcida do que é a família e do que são as relações familiares.

Voltei hoje a estas palavras. Aos "filhos afectuosos" que são uma oportunidade para cada família, um começo e fim de amor antes de serem mais nada. Que, invariavelmente, se transformarão em adultos. Vai ser sempre demasiado tarde para a infância.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Os tornados são personagens recorrentes nos meus sonhos.